sábado, 21 de janeiro de 2017

Houve tempos em que o ideal de alguém se identificava com o trabalho de santificação pessoal. Respondendo a Cristo e sob a orientação de Francisco, a "Plantinha" soube situar a sua doação e missão em termos eclesiais. Estava bem persuadida, assim como suas Irmãs, de que Deus as chamara para serem espelho e exemplo para os outros, para serem evangelicamente missionárias, para serem colaboradoras do próprio Deus junto dos homens, suporte dos membros mais fracos do corpo místico de Cristo, como se lê na terceira carta por ela escrita a Inês de Praga. Por isso se sentiam impelidas a peregrinar na Igreja de Deus.
Clara sente-se chamada, a partir do mais íntimo do seu ser, a edificar a Igreja, a dar a vida, a derramá-la toda inteira, não para sua realização pessoal, mas porque recebeu um apelo: olhar, ver, ser luz, testemunhar na Igreja de Deus, para glória do Altíssimo e para bem dos homens. A sua missão é, de certo modo, confirmar os outros na verdade, no amor, na beleza que viu e que tocou. Daí que, para a discípula do Pobrezinho de Assis, o importante, o sumamente importante, fosse a sua transformação em ícone da divindade, o abraçar e tocar o Verbo da vida, como se lê nas suas cartas a Inês de Praga. 
No percurso espiritual de Clara divisamos Belém, Nazaré e o Calvário, quais livros abertos à contemplação da apaixonada pelo Senhor Jesus Cristo que, de ouvinte atenta da Palavra evangélica se torna espelho dessa mesma Palavra. Como muito bem diz o nosso Frei Giacomo Bini, em Clara de Assis, um hino de louvor, a fiel discípula de Francisco e suas Irmãs, a partir do claustro da sua interioridade, seguindo o exemplo de Maria, tornam-se acolhimento, morada e ícone do Deus de amor, testemunho que se projetava no exterior.
De São Damião, cada Irmã descobre todo o mundo e, fazendo suas as alegrias, aspirações, preocupações e necessidades dos homens, por suas próprias mãos as apresenta ao "Pai das misericórdias", na expressão da Plantazinha de Francisco.  Abrasada no ardor missionário, desejosa de abraçar o mundo inteiro e se dar ao Senhor pelo martírio, Clara teria ido para Marrocos se o seu pai espiritual disso a não impedisse. Durante a sua doença, que durou uns trinta anos, a virgem Clara, à semelhança do crucificado do Alverne, está crucificada com Jesus Cristo e, em atitude redentora, permanece todos os dias em amorosa doação. Abrasada em amor, totalmente voltada para os outros, está em continua comunhão com seus irmãos em Cristo. Em todos pensa, por todos ora e sofre. Para todos tem uma palavra evangélica, de ternura, de compreensão e estímulo. Mesmo no seu leito de dor, mantém com as autoridades eclesiásticas, com os seus Irmãos no carisma, com pessoas amigas, importantes ou de condição simples, as melhores relações. Ela é, diante de todas as necessidades, um suporte e apoio espiritual. Na clausura, no seu leito de doença, a Irmã Clara avança, à semelhança do Serafim de Assis, no caminho da Cruz, identificando-se com o Esposo. Conforme a expressão de Frei Giacomo Bini, Francisco e Clara são semente lançada à terra que morrem para frutificar. Esta morte, amorosa e quotidiana, fazia parte da missão destes arautos de Cristo que, fiéis ao Evangelho se entregam e vivem com audácia o desafio da pobreza absoluta, da loucura da Cruz, do despojamento total, do amor incondicional ao Criador e às criaturas. Sim, o mistério da Cruz era, e continua a ser, o cerne da espiritualidade franciscano-clariana. Seguir "Cristo, o Pobre crucificado", identificar-se com Ele, n‘Ele se transformar, eis a razão de viver dos humildes seguidores do Evangelho, no século XIII.
Se com Ele morrermos na cruz da tribulação, com Ele habitaremos na gloria dos santos, escreve Clara a Inês de Praga. O sofrimento vivido em profunda união com Cristo, seu Esposo, identifica-a com o mesmo Cristo. 
O P. Larañaga diz que Clara, na sua clausura contemplativa, levou à plenitude o sonho mais profundo de Francisco de Assis: a ânsia de contemplar o Rosto do Senhor e de se dedicar exclusivamente a cultivar o desejo de Deus.
Ali, mãe e filhas, revestidas da dama pobreza, como transparência do Evangelho de Cristo, denunciam o pecado do seu tempo e de todos os tempos: o orgulho, a falta de amor, o egoísmo, a cobiça, o poder. É que a sua pobreza é o Cristo pobre. São Damião é comunidade profética que, ao mesmo tempo que interroga e responde, é facho de luz que compromete. Mas, para tanto, é preciso subir a montanha da dor, é preciso morrer, para tocar, para possuir o Absoluto, para ser transparência do mesmo Senhor.

A sociedade do Século XIII precisou de Francisco e de Clara para recuperar o sentido de Deus, o sentido de fraternidade. A Igreja do século XIII precisou de Francisco e de Clara para reencontrar a sua identidade evangélica.
São Damião, um espelho de Eternidade! Testemunha de que Deus está, de que a sua luz ilumina, de que o seu amor marca e transforma, de
que Deus é todo o bem, o único bem. A herança das Irmãs Pobres, como dos Irmãos Menores, era só Deus. Quem viu e tocou o Senhor, de nada mais precisa. Ele basta!
Clara era a transparência de Jesus. No Testamento, Clara exorta vivamente as suas Irmãs a que se esforcem por seguir sempre o caminho da santa simplicidade, humildade e pobreza, e que levem uma vida santa. Desta santidade de vida brotaria a luz, o esplendor, a beleza espiritual, a claridade, o odor da boa fama ao perto e ao longe. Seriam, então, cidade edificada no alto da montanha anunciada pelo Cristo bizantino de São Damião. 

Autoria:  Ir. Maria Otília Fontoura osc

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