sábado, 1 de setembro de 2012

LECTIO DIVINA FRANCISCANA
Leitura Divina Franciscana

A Palavra de Deus sempre foi vista e assumida pelos cristãos como uma iniciativa muito particular, especial e extraordinária de Deus comunicar-se com os homens. Dizemos “especial, particular e extraordinária” porque de modo comum e ordinário Deus se comunica e se doa aos homens sempre, a toda a hora, através das criaturas, dos acontecimentos, da história. Por isso, nós cristãos chamamos todo esse esforço ou iniciativa de Deus de “História Sagrada”. Enfim, cada criatura e cada acontecimento são, sempre, novas e renovadas tentativas de Deus, por vezes quase que “desesperadas” ou loucas, de amar-nos e de receber nosso inconstante e insignificante amor. Neste sentido o verbo português “comunicar-se” para traduzir e expressar esse empenho de Deus é muito fraco. O latim diz melhor e com mais precisão a riqueza dessa iniciativa de Deus, pois o verbo “communicare” – comunicar – significa antes e acima de tudo comungar. Então o certo seria dizer que Deus não apenas vem comunicar-se com o homem, mas, pelo menos no exemplo dos esposos, comungar sua vida. 

Por isso, ouvir, ler e meditar esta Palavra, além de expressar nosso amor, nossa gratidão, respeito e reverência ao Pai, que se dignou amar-nos por primeiro, é, também e acima de tudo, alimentar-se de Deus. Mui acertadamente diz o Senhor: Não só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus (Mt 4,4). E a voz do Apocalipse não receia ordenar a João, isto é, à Igreja, a cada um de nós, que tome o livrinho da Palavra das mãos do anjo e coma (Ap 10,9).

Portanto, ler, ouvir e meditar a Palavra de Deus significa alimentar-se de Deus, comungar Deus como o comungamos na Eucaristia. Termos como ler, ouvir, meditar, ruminar, guardar, contemplar e praticar a Palavra de Deus soam, sempre, como empenho do fiel para saciar sua fome de Deus. Pode-se dizer que o fiel tem necessidade de alimentar-se da Palavra de Deus como o recém nascido tem de sugar o leite do seio materno. Consequentemente, quem se alimenta da palavra de Deus torna-se divino assim como quem se alimenta da medicina torna-se médico, da religião religioso.

Dentro dessa necessidade maior, diz Orígenes, todo cristão deveria ser como Rebeca: “Cada dia, de novo, voltar à fonte da Escritura” (Cf. Gn 24) a fim de beber água viva que borbulha da fonte da Vida. E, para expressar essa necessidade, cunhou a famosa expressão Lectio Divina (Leitura Divina). E o monge, Guigo, na Idade Média, para atender essa necessidade, sistematizou um exercício chamado Lectio Divina, composto de quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação.

Mas, como o encontro com Cristo é sempre único e pessoal, a maioria dos fundadores de Ordens e santos faz sua própria Lectio Divina, ou seja, fazem uma Lectio Divina adaptada segundo sua experiência crística. Por isso, existem tantas Lectios Divinas quantas forem as espiritualidades. Jamais se verá um Santo Inácio, ou jesuíta, fazer uma Lectio Divina como a faz São Francisco, ou um franciscano, e vice-versa. 

Durante muitos séculos, por medo da livre interpretação, preconizada por Lutero e pelos reformadores da época, não apenas deixou-se de lado este exercício, mas, até, proibiu-se a leitura da Sagrada Escritura por parte do comum dos fiéis. Ela começa a ressurgir com o Vaticano II. O documento “Dei Verbum” recomendaaos sacerdotes, diáconos e catequistas que se apeguem às Escrituras por meio de assídua leitura sacra e diligente estudo... e a todos os fiéis, principalmente aos religiosos, que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, aprendam a eminente ciência de Jesus Cristo (DV 25).

E em 2008, os membros do último Sínodo da Igreja exortam os grupos e movimentos paroquiais, as famílias, e os jovens para que façam da escuta da Palavra um encontro vital com Deus através da Lectio Divina. Pois, aí se colhe a Palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência do cristão. 

Agora, (30/09/2010), Bento XVI, em sua Exortação Apostólica Verbum Domini (Palavra do Senhor), expressa sua esperança de que a Palavra de Deus venha a tornar-se cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial (VD 1). Em outras palavras: espera que passemos da Pastoral de Bíblia para a Bíblia na Pastoral, isto é, que não haja mais nenhuma atividade cristã que não seja conduzida senão sob a luz, a alma e o vigor da Palavra de Deus. Devemos recordar, aliás, que tudo nasce da Palavra de Deus. Não houvesse a Palavra de Deus não teríamos nada, nem a Criação toda, nem o Povo de Deus, nem a Igreja, nem o sacerdócio e nem mesmo a Eucaristia. 

Finalmente, importa recordar, ainda, que, já em 1990 - e isso é muito importante para nós, franciscanos e para todas as Ordens religiosas - um documento da Igreja (Orientações para a Formação nos Institutos religiosos, 76), esclarece que o texto a ser lido pode, também, ser tirado da Liturgia ou de uma importante página espiritual da tradição da Igreja, no nosso caso, os Escritos de São Francisco e as Fontes Franciscanas.

Frei Dorvalino Fassini, OFM.

do Site das Clarissas do Brasil.

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