domingo, 5 de agosto de 2012

A beleza de uma vocação

«Vós, Senhor, sejais bendito,
pois me criastes»
(Santa Clara)

O olhar de Deus sobre uma criatura que se deixa amar e responde com disponibilidade é sempre um evento maravilhoso. Este grito de louvor lançado por Clara, no fim de seus dias, é a síntese de sua riqueza espiritual, de sua existência aceita em todos os seus aspectos positivos e negativos: restitui-a sem lamúrias ao Senhor. Nisto, Francisco é diferente de Clara: diante de Deus, sente-se mais indigno de louvá-lo. Clara é mais espontânea: olhando toda a sua vida em perspectiva, imediatamente a vê como uma criação de Deus, como uma história sagrada, uma história bonita, positiva. “A comunhão sempre produz beleza”.

Clara está plenamente reconciliada consigo mesma, com seu passado, com seus limites, e oferece tudo ao Senhor com serenidade e liberdade. Tudo o que constituiu sua existência é fruto da ternura e do amor de Deus para com ela; e ela se fez “espelho” para refletir esta beleza divina sobre quem lhe está ao lado; fez-se imagem para o mundo para que todos pudessem contemplar o paciente cuidado de Deus por suas criaturas. «Ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor» (3CtIn 15), escreve a Inês, repetindo a exortação de Francisco, extasiado e quase incrédulo diante da humildade de Deus: «Portanto, nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá!» (COrd 29).

Toda a vida de Clara torna-se um hino de louvor e de ação de graças Àquele que a criou, guiou e protegeu. “Espelhou-se” no Amado, viu-se transformada naquele que contemplou e agora já saboreia o gosto da eternidade. Clara não sente necessidade de pedir perdão ao irmão corpo, como Francisco: ela o uniu neste canto de louvor; também o corpo que sofreu com paciência os longos anos de enfermidade é objeto de louvor, porque objeto de amor por parte do Pai: «Vós, Senhor, sejais bendito, pois me criastes».

Também a rígida pobreza observada durante toda a vida tem seu peso na construção desta beleza, porque criou um espaço interior para poder hospedar o Amado.

Michelângelo definia a beleza como purificação do supérfluo. A vida de Clara foi proclamação de beleza: sua caminhada foi de purificação, de “cinzelamento” para fazer emergir da forma mais límpida possível a imagem de Deus que cada um de nós traz em si. Quando, pouco a pouco, a experiência religiosa se torna experiência de um “encontro”, tudo se transforma, tudo se torna sacramento da beleza, sinal e instrumento de um relacionamento que envolve alma e corpo: «Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio de seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura”» (LegCl 44). «O que me parecia amargo, para mim mudou-se em doçura da alma e do corpo» (Test 3). Já não há necessidade de desprezar, mas só de valorizar e amar humildemente: «Odiar a si mesmo é mais fácil do que se pensa. Graça é esquecer-se de si. Mas se em nós tiver morrido todo o orgulho, graça das graças seria amar humildemente a si mesmo, como qualquer membro sofredor do corpo de Cristo» (G. Bernanos).

O que podemos fazer para que nossa vida de hoje se torne bela? Valorizar os espaços: os estreitos espaços da clausura podem tornar-se lugares de festa e não de penitência, se forem iluminados e aquecido por uma Presença. Quão importante é valorizar os lugares numa vida claustral contemplativa! Na simplicidade franciscana, que forma e ajuda o relacionamento, existe uma estupenda beleza; na ordem, na limpeza e na decoração dos ambientes de um mosteiro, existe uma harmonia “contemplativa”. Ao mesmo tempo, quem vive a comunhão torna-se criativo na preparação dos lugares e dos espaços para o encontro com o Amor e com os outros.

Igualmente importante torna-se a palavra. Para uma contemplativa, o próprio silêncio se torna palavra viva, que “informa” e transforma a dinâmica dos gestos quotidianos. Quando a palavra é concebida e modelada no silêncio, plasma o coração e transforma a vida.
Assim, o tempo no qual moramos torna-se elemento indispensável para construirmos uma vida harmoniosa: graças à encarnação, vivemos já no tempo de Deus, e escrevemos nossa pequena história neste tempo “habitado”; não podemos apropriar-nos dele, mas somente vivê-lo como uma graça, percebendo ali uma Presença e restituindo-o a Quem no-lo deu. Viver este ritmo sereno de tempo significa viver na respiração profunda de Deus, sem pressa ou precipitação, sem lamúrias ou fugas na ação, sem “consumi-lo” avidamente ou deixar-se consumir, levar e “estressar” por ele. Viver no tempo de Deus, percebendo sua epifania em cada pequeno acontecimento, em cada gesto quotidiano, pode tornar-se um verdadeiro exercício de contemplação, uma autêntica proclamação de libertação diante de um mundo vítima de uma visão egocêntrica do tempo, que induz o homem à angústia ou à fuga para o vazio. Uma contemplativa testemunha que o tempo não é dinheiro, mas relacionamento!

Quanta necessidade tem o homem de hoje da graça e da beleza de viver no tempo de Deus. Não é uma utopia, um sonho: é uma possibilidade realizável. A santidade não consiste na quantidade de “boas ações”, mas na qualidade do amor vivido quotidianamente. Mais do que um ato, a contemplação, a adoração é um modo de pôr-se diante de Deus na oração como na vida; é uma atitude global da vida quotidiana, no seio da qual conseguimos perceber o primado de Deus. A beleza consiste exatamente em deixar-se olhar por Deus: «Deus, se tu me olhas, torno-me bela» (Gabriela Mistral, OFS).

A beleza de nossa vocação nasce desta harmoniosa construção espiritual, na qual tudo encontra seu lugar, porque tudo se refere e se liga à relação esponsal com o Senhor: tempo, espaço, trabalho, repouso, silêncio, palavra... A contemplação é precisamente a harmonia que deve ser construída diariamente, em primeiro lugar dentro de nós mesmos, onde nos espera Aquele que nos habita. Santo Agostinho dizia: «Noli foras ire»: não vás para fora, encontras Deus na tua interioridade. Podes sair para o outro, para o mundo, somente com todo o teu ser, reconciliado contigo mesmo e acompanhado por Deus. Então, nem as tensões, que jamais faltarão, entre o “dentro” e o “fora”, entre carisma e estruturas, entre alma e corpo, entre clausura e mundo, entre vida pessoal e vida de fraternidade, perturbarão a harmonia e a serenidade profunda, porque a contemplativa sempre encontrará o caminho que conduz ao Absoluto, caminho de paz e não de perturbação, ansiedade ou preocupações.


Da Carta “Clara um Hino de Louvor”, Frei Giacomo Bini, OFM.

0 comentários:

Postar um comentário

Tecnologia do Blogger.

Últimas Postagens