segunda-feira, 13 de agosto de 2012

“Correrei e não desfalecerei”
 
Encerramento do VIII Centenário da Consagração
e da Fundação da Ordem de Santa Clara
 
 
 Basílica de Santa Clara, Assis, 11 de agosto de 2012
Frei José Rodríguez Carballo, OFM
Ministro Geral
 
Amadas Irmãs Pobres de Santa Clara, irmãos e irmãs:
com as palavras de Clara lhes saúdo e desejo: “saúde e paz” (5CtaCl 1).

Depois de um ano e meio de celebrações, com a memória litúrgica do trânsito da Irmã Clara, estamos encerrando o VIII Centenário de sua consagração na Porciúncula (1211-1212), e da fundação da Ordem das Irmãs Pobres. E enquanto constatamos o quanto este Centenário nos aproximou da Plantinha de Francisco (TestCl 37), maravilhamo-nos por tudo o que o Senhor fez nesta mulher cristã cuja maior grandeza foi a de levar a sério o Evangelho, seguindo o caminho que o Irmão Francisco, “verdadeiro amante e imitador” do Senhor, mostrou-lhe com sua vida e com suas palavras (cf TestCl 5), seguimos agradecendo ao Pai das misericórdias o dom de Clara e das Irmãs Pobres, de ontem e de hoje, que, seguindo sua Forma de Vida, fizeram e continuam fazendo do Evangelho sua regra e vida (cf. RCl 1-2).

As celebrações jubilares se encerram hoje, porém, com isso não termina nossa admiração por esta mulher nova, cuja mensagem mais profunda e autêntica queremos assimilar, pois se nos apresenta cheio de atualidade, apesar dos 800 anos que nos separam da aventura evangélica desta mulher que nas mãos do Poverello entrou para sempre no mundo e na lenda dos grandes seguidores daquele que para nós se fez caminho (Jo 14, 6) (cf. TestCl 5), para que lhe sigamos “com rápida corrida, com passo ligeiro, pé seguro”  (2CtaCl 12).

Neste contexto, chega-nos um convite da própria Clara: “Conhece tua vocação” (TestCl 4). Conhecer significa discernir os elementos essenciais e fundamentais da própria vocação e tomar consciência deles; porém, significa também amar a própria vocação, para vivê-la como convêm (cf, Ef, 4,1), quem recebeu um dom tão singular (cf. TestCl 3). Não se trata, portanto, de um simples conhecimento teórico dos elementos essenciais da vocação cristã e em nosso caso da vocação franciscano-clariana. Clara, convidando-nos a conhecer nossa vocação, convida-nos a passar de um conhecimento meramente intelectual e teórico a uma experiência de vida que para uma Irmã pobre comporta viver a mesma Forma de Vida que Clara viveu e que através de seus Escritos, principalmente da Regra, transmitiu a suas irmãs.

“Conhece a tua vocação”. O Centenário foi uma boa ocasião para centrar-nos nos elementos essenciais do carisma franciscano-clariano. Nos momentos de crises, como os que estamos vivendo - momentos de inverno, dizem alguns - não podemos permanecer numa identidade superficial, mas voltar ao essencial, cultivar as raízes, aprofundar, se não quisermos ficar à mercê das intempéries, com todos os riscos que isto implica.

Irmãs e Irmãos: a Igreja e nossa própria vocação de batizados nos interpelam sobre o sentido de nossas vidas, de nossas opções, e enquanto seguidores de Francisco e de Clara, interrogam-nos sobre o caráter específico de nossa vocação e missão franciscano-clariana. Qual é nossa missão específica na Igreja? É uma pergunta que não podemos ignorar. O mundo, por sua vez, angustiado e agitado por tantas tensões e crises, porém com grande simpatia por Francisco e por Clara, nos lança perguntas como estas: quem são e em que podem nos ajudar? Mudando em apenas algumas coisas, essas são as mesmas perguntas que a Igreja e o mundo levantam para os cristãos e muito mais aos consagrados. E nós não podemos ficar de braços cruzados diante de tais questionamentos.

No final deste Centenário Clara nos repete com firmeza: “Conhece tua vocação”, isto é, ama a tua vocação, que significa rever a própria identidade e o caráter particular de nossa vocação hoje, não para pôr em dúvida o que adquirimos através da reflexão e do estudo durante estes anos, mas para tomar posse dela e torná-la nossa em cada momento. O chamado dirigido há 800 anos a Francisco e a Clara nos interpela hoje. Nossa tarefa é acolhê-lo e vivê-lo, guardá-lo e mantê-lo sempre atual, respondendo assim aos anseios e às necessidades dos homens e mulheres de nosso tempo. É grande a distância que existe entre as figuras de Francisco e de Clara e nós, que nos dizemos seus filhos; a distância entre o que nos propomos como projeto e a realidade concreta de nossa fraternidade franciscano-clariana. A crise atual do mundo e da Igreja também nos atinge e nossa firme vontade em ser fiéis ao Evangelho está nos pedindo um novo começo, está nos pedindo ter os olhos fixos no ponto de partida (cf. 2CtaCl 11), pois só assim é possível uma profunda conversão  do coração e renovação na fé, cultivar a fidelidade criativa, (cf. VC 37), ter a lucidez, a audácia e a visão de futuro que exigem os tempos atuais, e ser para o homem de hoje memória e profecia.

Outro aspecto essencial do magistério de Clara é que o Senhor é tudo: beleza, amor, suavidade, benignidade. Em uma de suas Cartas, Clara escreve a Inês: “Sua beleza - a de Cristo - todos os batalhões bem-aventurados dos céus admiram sem cessar, sua afeição apaixona, sua contemplação restaura, sua bondade nos sacia, sua suavidade preenche, sua lembrança ilumina suavemente” (4CtaCl 10ss). Clara é a jovem que se deixou atrair e, presa pela beleza do Esposo, “da mais nobre estirpe” uniu-se a Ele em matrimônio (1CtaCl 7) (cf Os 2, 14). Clara descobriu em Jesus Cristo o “tesouro incomparável” (3CtaCl 7), a pérola preciosa (cf. Mt 13, 46). Clara é bem consciente da triste possibilidade de que pérola e tesouro podem ser roubados. Por este motivo, Clara insiste na necessidade da vigilância, a fim de que este mundo falaz não nos arrebate o tesouro, a pérola, que é Cristo. Esta mesma preocupação leva Clara a escrever a Ermentrudes de Brujes, e nela, a todos nós: “Leva até o fim com empenho a obra que começou bem” (5CtaCl 14); “não te faças perder a cabeça os vãs fantasmas deste mundo falaz” (5CtaCl 6); deixa de lado absolutamente tudo o que este mundo falaz e instável tem aprisionado os que cegamente o ama; ama com todo o ser Aquele que totalmente se entregou por teu amor” (cf. 3CtaCl 15). Essa mesma preocupação é a que a leva a dizer a Inês: “não deixe que lhe envolvam trevas alguma, nem amargura” (cf. 3CtaCl 11), e mais “com andar apressado, com passo ligeiro,pé seguro” (2CtaCl 12), avança com confiança “pelo caminho dos mandamentos do Senhor” (2CtaCl 15).

“Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. Desposar-te-ei...” (Os 2, 14ss), lemos na Sagrada Escritura.  “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace (Ct 2,6) toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca”, escreve Clara (1 CtaCl, 1.3; 2, 4.6). É a linguagem dos apaixonados. E, acima de qualquer coisa, Clara é isto: uma mulher apaixonada pelo próprio Amor; uma mulher que não vive para si, mas para Cristo, que habita nela: “... não sou eu que vivo, é Cristo quem vive em mim” (Gál 2, 20), poderia dizer muito bem Clara, fazendo suas as palavras de Paulo. Clara é uma mulher conquistada por Cristo, seduzida pela formosura de sua bem-aventurada pobreza, sua santa humildade e sua inefável caridade (cf. 4CtaCl 3), é uma mulher que não deseja outra coisa senão unir-se a Cristo pobre e crucificado: “Abraça o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2 CtaCl 18), poderia dizer a Inês, porque antes realizou em sua vida este desejo. Clara é uma mulher profundamente enamorada daquele “cujo amor apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém” (4 CtaCl 3). E esse amor por Cristo lhe leva a fazer d’Ele o motivo cotidiano de sua contemplação, até transformar-se toda inteira em sua imagem divina (cf 2 CtaCl 13), e permitir que em sua vida transpareça a vida de Cristo, “o mais belo dos filhos dos homens, feito por nossa salvação o mais vil dos homens” (cfr. 2 CtaCl 4). Seduzida pelo amor de Jesus Cristo, o ama apaixonadamente e se entrega incondicionalmente àquele que se doa sem medida: “Ama totalmente Àquele que totalmente se deu por teu amor” (3CtaCl 15).

Para Clara o Senhor é tudo. Perguntemo-nos: que lugar o senhor ocupa em minha vida? Quem é Jesus para mim? Por outro lado, Clara é a esposa fiel. Perguntemo-nos: é possível no mundo de hoje ser fiéis? Como não falhar em nosso compromisso de fidelidade ao Senhor?

Os meios que Clara contempla para não retroceder no propósito inicial de seguir a Cristo pobre e crucificado e de caminhar decididamente pela senda da virtude (5CtaCl 3), são simples, mas eficazes: fazer constante memória do propósito inicial, “com os olhos fixos no ponto de partida” (2CtaCl 11), olhar diariamente no Espelho (4CtaCl 15), colocar a mente, a alma e o coração constantemente no Espelho (cf. 3CtaCl 12-13), apegando-se com todas as fibras do coração ao Cordeiro imaculado (4CtaCl 8-9), sem apagar nunca o espírito da santa oração e devoção (cf. RCl 7, 2).

Queridas Irmãs, queridos Irmãos: aqui está o segredo da fidelidade aos nossos compromissos batismais e, em nosso caso, ao que prometemos pela profissão. Se quisermos realmente permanecer firmes no propósito inicial não há outro caminho senão o de atualizar/renovar constantemente esse propósito e o de permanecer unidos a Cristo, como os sarmentos à videira (cf. Jo 15, 1ss). Nestes tempos em que a fidelidade não é a virtude da moda, como já afirmava Paulo VI, é necessário centrar-nos nos elementos essenciais de nossa identidade e, deste modo descentrar-nos, para ser portadores do dom do Evangelho aos homens e mulheres de hoje. O amor a Cristo, cujo “poder é mais forte, generosidade mais elevada, aspecto mais belo, seu amor mais suave e todo seu ser mais elegante do que nenhum outro” (cfr. 1 CtaCl 2), fez de Clara uma mulher livre e lhe possibilita “percorrer a senda da felicidade, confiante e alegre” (2CtaCl 3). Esse mesmo amor lhe permite permanecer sempre unida à videira. Essa é a razão primeira e a última de sua grande fecundidade espiritual - mãe de numerosas virgens, como a saúda a liturgia - e de sua atraente atualidade.

Porém, Clara nos ensina, também, que Cristo nunca está só, sempre o encontramos com o Pai, com os outros. Unir-se a Cristo é percorrer o caminho que nos leva para o Pai e para os demais. Para Clara, comungar com seu Amado é comunicar num mesmo amor ardente com aqueles e aquelas que povoam seu coração e sua vida. Os testemunhos do processo de canonização são um exemplo do que dissemos. Da mesma forma que o pequeno jardim de São Damião se abre sobre a vasta planície de Assis, seu coração se estende às dimensões infinitas do coração de Deus. Clara nos ensina que num mesmo amor amamos ao Outro e aos outros. Deus é relação. Não há felicidade em Deus que não se ofereça aos outros, não se acolha nos outros e não se compartilhe com os outros. A árvore boa da contemplação produz sempre o fruto saboroso da amizade e da fraternidade. Deste modo, o próprio Jesus vem mostrar nossa capacidade de amar, e a vida de relação se converte em terreno privilegiado em que Deus Amor se dá a provar e se deixa tocar através dos outros.

“Correrei e não desfalecerei... Clara é uma mulher jovem e cheia de vida, mesmo que seu corpo seja frágil por causa da enfermidade, porque encontrou Aquele que é a vida, Aquele que é tudo: “o amor..., a beleza..., o gozo..., nossa esperança e alegria..., toda nossa doçura” (AlD 4 -6). Clara é uma mulher feliz, porque encontrou Aquele que é a causa de toda alegria e a origem de toda beleza. Clara é a mulher fiel, porque preferiu “o desprezo do mundo aos louvores, a pobreza, às riquezas temporais, o guardar cuidadosamente os tesouros, não na terra, mas no céu” (1CtaCl 22). Essa é Clara, a indigna serva de Jesus cristo e das irmãs, como ela mesma ama apresentar-se (cf. (cf. 1CtaCl 2; 2CtaCl 2; 3CtaCl 2; 4CtaCl 2; 5CtaCl 1); “esposa, mãe e irmã do Senhor Jesus Cristo” (cf. 1CtaCl 12), irmã, mãe e mestra nossa, como se revelou de modo particular neste Centenário.

Queridas irmãs e irmãos: que esta celebração nos leve a imitar o exemplo de fidelidade de Clara e que sua intercessão nos proteja e acompanhe em nosso caminho no seguimento de Jesus cristo, segundo a Forma de vida que nos deixaram Francisco e Clara.

FONTE: do Site das Clarissas do Brasil.

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