sexta-feira, 25 de maio de 2012


VISITA AO SANTUÁRIO DE LA VERNA

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Domingo, 13 de Maio de 2012

Queridos Frades Menores
Estimadas filhas da Santa Madre Clara
Queridos irmãos e irmãs
O Senhor vos conceda a paz!

Contemplar a Cruz de Cristo! Subimos como peregrinos ao Sasso Spicco de La Verna onde «dois anos antes da sua morte» (Celano, Primeira Vida, III, 94: FF, 484) São Francisco teve impressas no seu corpo as chagas da paixão gloriosa de Cristo. O seu caminho de discípulo levou-o a uma união tão profunda com o Senhor que partilhou também os sinais exteriores do supremo ato de amor da Cruz. Um caminho iniciado em São Damião diante do Crucifixo contemplado com a mente e o coração. A meditação contínua da Cruz, neste lugar sagrado, foi caminho de santificação para tantos cristãos que, ao longo de oito séculos, aqui se ajoelharam para rezar no silêncio e no recolhimento.

A Cruz gloriosa resume os sofrimentos do mundo, mas é sobretudo sinal tangível do amor, medida da bondade de Deus em relação ao homem. Neste lugar também nós somos chamados a recuperar a dimensão sobrenatural da vida, a dirigir o olhar para além do que é contingente, para voltar a confiar-nos completamente ao Senhor, com o coração livre e em júbilo perfeito, contemplando o Crucificado para que nos atinja com o seu amor.

Altíssimo, onipotente, bom Senhor, vossos são o louvor, a glória e a honra et omne benedictione» (Cântico do Irmão Sol: FF 263). Só deixando-se iluminar pela luz do amor de Deus, o homem e a natureza inteira podem ser resgatados, a beleza pode finalmente refletir o esplendor do rosto de Cristo, como a lua reflete o sol. Jorrando da Cruz gloriosa, o Sangue do Crucificado volta a vivificar os ossos áridos do Adão que está em nós, para que cada um encontre a alegria de se encaminhar rumo à santidade, de subir ao alto, rumo a Deus. Deste lugar abençoado, uno-me à oração de todos os franciscanos e franciscanas da terra: «Nós vos adoramos ó Cristo e vos bendizemos aqui e em todas as igrejas que estão no mundo, porque com a vossa santa cruz remistes o mundo».

Arrebatados pelo amor de Cristo! Não se vem a La Verna sem se deixar guiar pela oração de São Francisco do absorbeat, que reza: «Nós vos imploramos, ó Senhor, a fervorosa e doce força do teu amor arrebate a minha mente de todas as coisas que estão debaixo do céu, para que eu morra por amor do meu amor» (Oração «absorbeat», 1: FF 277). A contemplação do Crucificado é obra da mente, mas não consegue libertar-se para o alto sem o apoio, sem a força do amor. Neste mesmo lugar, Frei Boaventura de Bagnoregio, insigne filho de São Francisco, projetou o seu Itinerarium mentis in Deum indicando-nos o caminho a ser percorrido para a meta na qual encontrar Deus. Este grande Doutor da Igreja comunica-nos a sua experiência, convidando-nos à oração. Antes de tudo, a mente deve estar orientada para a Paixão do Senhor, porque é o sacrifício da Cruz que elimina os nossos pecados, uma falta que só pode ser preenchida com o amor de Deus: «Exorto o leitor — escreve — antes de tudo ao gemido da oração por Cristo crucificado, cujo sangue lava as manchas das nossas culpas» (Itinerarium mentis in Deum, Pref. 4). Mas para que seja eficaz, a nossa oração precisa de lágrimas, ou seja, do envolvimento interior, do nosso amor que responda ao amor de Deus. E depois é necessária aquela admiratio, que são Boaventura vê nos humildes do Evangelho, capazes de admiração diante da obra salvífica de Cristo. E precisamente a humildade é a porta de qualquer virtude. De facto, não é com o orgulho intelectual da busca fechada em si mesma que é possível alcançar Deus, mas com a humildade, segundo uma célebre expressão de São Boaventura: «Não pense [o homem] que é suficiente a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem a admiração, a consideração sem a exultação, a obra sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, o espelho sem a sabedoria divinamente inspirada» (Ibidem).

A contemplação do Crucificado tem uma eficácia extraordinária, porque nos faz passar da ordem das coisas pensadas, à experiência vivida; da salvação esperada, à prática bem-aventurada. São Boaventura afirma: «Aquele que olha atentamente [para o Crucificado]... realiza com ele a páscoa, ou seja, a passagem» (Ibid., VII, 2). É este o centro da experiência de La Verna, da experiência que aqui fez o Pobrezinho de Assis. Neste Monte Sagrado, São Francisco vive em si mesmo a unidade profunda entre sequela, imitatio e conformatio Christi. E assim diz também a nós que não é suficiente declarar-nos cristãos para sermos cristãos, nem sequer procurarmos fazer obras boas. É necessário conformar-se com Jesus, com um lento, progressivo compromisso de transformação do próprio ser, à imagem do Senhor, para que, por graça divina, cada membro do Corpo d’Ele, que é a Igreja, mostre a semelhança necessária com a Cabeça, Cristo Senhor. E também neste caminho se começa — como nos ensinam os mestres medievais no seguimento do grande Agostinho — a partir do conhecimento de si mesmos, da humildade de olhar com sinceridade para o próprio íntimo.

Levar o amor de Cristo! Quantos peregrinos subiram e sobem a este Monte Sagrado para contemplar o Amor de Deus crucificado e para se deixar arrebatar por Ele. Quantos peregrinos subiram em busca de Deus, que é a verdadeira razão pela qual a Igreja existe: servir de ponte entre Deus e o homem. E aqui encontramos também a vós, filhos e filhas de São Francisco. Recorda-vos sempre de que a vida consagrada tem a tarefa específica de testemunhar, com a palavra e com o exemplo de uma vida segundo os conselhos evangélicos, a história fascinante de amor entre Deus e a humanidade, que atravessa a história.

A Idade Média franciscana deixou uma marca indelével nesta vossa Igreja de Arezzo. As repetidas travessias do Pobrezinho de Assis e o seu prolongar-se no vosso território são um tesouro precioso. A vicissitude de La Verna foi única e fundamental, devido à singularidade dos estigmas impressos no corpo do seráfico Padre Francisco, mas também à história coletiva dos seus frades e do vosso povo, que ainda redescobre, junto do Sasso Spicco, a centralidade de Cristo na vida do crente. Montauto de Anghiari, Le Celle de Cortona e as Ermidas de Montecasale e de Cerbaiolo, mas também outros lugares menores do franciscanismo na Toscana, continuam a marcar a identidade das Comunidades de Arezzo, Cortona e Sansepolcro. Tantas luzes iluminaram estas terras, como santa Margarida de Cortona, figura pouco conhecida de penitente franciscana, capaz de reviver em si mesma com extraordinária vivacidade o carisma do Pobrezinho de Assis, unindo a contemplação do Crucificado com a caridade pelos últimos. O amor a Deus e ao próximo continua a animar a obra preciosa dos franciscanos na vossa Comunidade eclesial. A profissão dos conselhos evangélicos é uma via-mestra para viver a caridade de Cristo. Neste lugar abençoado, peço ao Senhor que continue a enviar operários para a sua vinha e, sobretudo aos jovens, dirijo o urgente convite, para que todo aquele que é chamado por Deus responda com generosidade e tenha a coragem de se entregar à vida consagrada e ao sacerdócio ministerial.

Fiz-me peregrino a La Verna, como Sucessor de Pedro, e gostaria que cada um de nós voltasse a ouvir a pergunta de Jesus a Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?... Apascenta os Meus cordeiros» (Jo 21, 15). É o amor a Cristo que está na base da vida do Pastor, assim como da do consagrado; um amor que não receia o compromisso nem a fadiga. Levai este amor ao homem do nosso tempo, muitas vezes fechado no seu individualismo; sede sinal da misericórdia imensa de Deus. A piedade sacerdotal ensina aos sacerdotes a viver aquilo que se celebra, repartir a própria vida com quem encontramos: na partilha do sofrimento, na atenção aos problemas, no acompanhamento do caminho de fé.

Agradeço ao Ministro-Geral José Carballo as suas gentis palavras, a toda a Família franciscana e a todos vós. Perseverai, como o vosso Santo Padre, na imitação de Cristo, para que todos os que se encontrarem convosco encontrem São Francisco e encontrando São Francisco, encontrem o Senhor.

© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

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